Arquivo

domingo, fevereiro 17

"Tu tens horas?"



         Agora mesmo estava conferindo a programação de filmes que passariam na televisão e selecionando-os de acordo com o meu humor atual. Logo a seleção foi interrompida: fim do horário de verão. Devo eu olhar a sequência de filmes de acordo com o horário antigo ou de acordo com o horário que está para acabar? Nem me venha com esse blá blá blá de que se deve esperar até a meia-noite para adiantar o relógio em uma hora,  pois é muito mais fácil e cômodo burlar as regras e regressar o ponteiro antes do fim do dia, até para o funcionário do site da programação do canal. Sensação boa essa da gente poder fazer o próprio tempo, adiantando ou atrasando o relógio, seja em um segundo ou em uma hora. Acho que nunca mencionei, mas sou fã desse horário: o sol das oito horas da noite não é qualquer sol. Por isso, esses dias me deram a dica de eu continuar com a hora atrasada por mais uma semana (tempo que leva para minhas férias acabarem). Por um momento, a novidade até começou a se concretizar na minha mente, mas logo se deteriorou: não teria graça a claridade diária tardia ser só minha... Resolvi, por isso, fazer meu próprio horário sem olhar para o relógio. Que se adiante, que se atrase, não dou a mínima. Não olho para ele. E não é que deu certo? Afinal, faça as contas, hoje é sábado de noite e eu estou em casa. Mesmo com dois convites tentadores pra uma bela noitada, resolvi não aceitá-los no momento em que não só percebi que uma tensão entre meus pais estava prestes a acontecer, mas também quando notei que apaziguá-la com um jantar bem feito e uma mesa bem arrumada, me faria bem também. Ceda. Mas ceda com prazer, caso contrário o efeito será reverso.
         Hoje, o curso do meu tempo se direcionou a este pacato momento. Fiz pizza para o jantar e uma mousse para a sobremesa (minhas (falsas) especialidades). Lavei e enxaguei toda a louça e agora vou fechar o site da programação de filmes e ligar a televisão. Vou deixar o canal me surpreender, seja a hora que for.
          

"Amor...


humor."

Oswald de Andrade




Diálogo Conveniente

               
             Esses dias passei por um homem que exclamou enquanto procurava por algo para comer na lixeira: "A crise mundial chegou no seletivo." Eu respondi: "Já tentou no orgânico?" E ele sem nem virar a cabeça respondeu: "Que é isso?! Sou andarilho, não mendigo." Quanta pretensão a minha...

quarta-feira, dezembro 19

Eterno Último


         
            É divertido como deixamos o nosso melhor sempre para o futuro. Essa atitude até tem um pouco de sentido já que nossa esperança comanda nossa cabeça a acreditar no ‘melhor futuro’, este que é instrumento de segurança rotineira. Se tu não sentes isso é porque tua esperança é mais esperta que o teu ceticismo e finge se omitir por trás deste, afinal, quem não tem esperança tá morto. Eu escrevo pra vivos, vivinhos da silva, que hoje nesse globo cada vez mais ‘mundializado’ tendem a crer nos acontecimentos majestosos como objetos de mudança para a individual melhora. Esperam a cura da doença incurável, a queima de fogos do ano-novo e o feliz natal da meia-noite pra prometer e prometer. Nada contra! Sou um deles! Gosto do brinde do ano-novo, desejo que todos os pratos da ceia do natal anterior se materializem na minha frente quando a pizza tá demorando pra chegar no jantar de uma quinta-feira e acredito que, no mínimo, apreciaria a cura de uma eventual doença incurável. Alguns dizem que tudo isso faz sentido por questões de energia: um bocado de gente prezando pelo ‘melhor futuro’ tem que ter alguma reação metafísica considerável. Acredito que esta incrível existe, mas não acredito que humanos sejam capaz de senti-las e aplica-las. Fazemos tanta burrada que nos limita dia após dia, que custa acreditar que a energia em pauta tem um efeito direto.
         A solução, a sente já sabe: fazer o ‘melhor presente’. O meio: buscar significados. Quando entendermos a razão do natal, do ano novo e até da doença vamos ter menos motivos de revolta porque vamos esclarecer nossas mentes e compartilhar uns com os outros. Acredito que o dia em que todos perceberemos que não existe amanhã para o nosso ‘melhor’, vai chegar. E olha que eu nem tô falando do dia 21.

segunda-feira, dezembro 10

Tenta


           
          Passar a vida inteira desejando algo específico não é fácil. Quando se passa por papinha, espinhas, depressão, convicção (e depois depressão de novo) e se deseja a mesma coisa, brota da gente paciência e alma. Imaginar, idealizar, tentar o utópico por tanto, mas tanto tempo faz do indivíduo um belo dum persistente. Persistência real só se percebe quando a fase da empolgação passa, quando a fase do desapontamento passa, quando a fase do ‘sentir nada’ (de tanto querer sentir) já era, e mesmo assim se dá o próximo passo não se dando bola para os tantos ferros encravados no pé que atrapalham a caminhada. O persistente deve morar no Saara e morrer de frio. O persistente tem que construir chão com telha e desgrudar suas ideias, que tanto o atravancam, com cola. Ele tem que sentir que por mais que ele suficiente, nunca é tente. E tem que provar que isso que acaba de escrever faz sentido. É claro que dá pra conseguir o que se quer optando por trechos mais fáceis. Claro pra muitos, escuro pro persistente. O caminho espinhoso é horrível, mas é o único pra ele. Autoflagelação? Bobagem. Quem persiste não tem tempo pra essa coisas.
         Porém, quando ali, num momento sucinto e rente, a coisa tão querida aparece em sua frente, e ele pobre com uma lágrima correndo diz baseado na falsa verdade crente: agora sim, pra sempre serei persistente.

domingo, outubro 28

Tatuagem Maria


          
          Todos somos guerreiros. Guerreiros das situações árduas, das dores permanentes e dos momentos facilmente complicados. Acima de qualquer outra coisa somos guerreiros cotidianos. Só não somos todos milicos, porque não sabemos o modo de manusear instrumentos bélicos afim de derrotar um determinado inimigo: sabemos muito mais. Quando esbarramos nas duras condições das nossas vidas, temos que correr e achar a mais potente arma que conseguirmos para que o tiro certeiro no brio de nossos mais ingratos sentimentos aconteça. Quando tu derrotas de uma vez por todas este grande mal que por alguma ventura te cercou, a comemoração subjetiva e até objetiva não só é necessária como é extasiante. Infelizmente alegria de ricos (de espírito) também cessa e depois de um tempo tu vais perceber que o problema superado anteriormente foi de extrema importância para ti, porém já será hora de crescer novamente. Pode ser que teu próximo empecilho não adquira tamanhas dimensões como o anterior. Tu deves estar pensando que obviamente seria um bom sinal, afinal, quanto menor o problema mais fácil a resolução do mesmo. Assim como muitas vezes um mais um não é dois, aquele menor problema que tu encontra pode te dar muito mais trabalho do que o avantajado obstáculo que tu tinha encontrado anteriormente. Isto só acontece quando tu tá usando a tuas armas mais pesadas e complexas tão seguidamente que elas começaram a parecer um simples arco e flecha. O pior disso tudo é que na hora que tu devias usar o armamento indígena, tu acendes o maior fogo possível no pavio do mais forte canhão e o tiro sai pela culatra.
         Tudo tem sua devida dimensão. Para respeitar essa, não só o equilíbrio emocional é necessário, mas também a santa paciência. Foque tuas defesas nas extensas guerras, porém não esqueça dos pequenos conflitos. Só assim seremos guerreiros por completo, ou melhor, heróis cotidianos. 

segunda-feira, outubro 8

Tênue Ponteiro

        
         Esses dias me deparei com o convite de casamento da minha prima. Quando falo em ‘deparar’ não estou me referindo à primeira vez que o vi, e não estou querendo dar a ideia de que fui o único membro da família a descobrir da existência do grande evento apenas com o convite já entregue. Quando uso ‘deparar’ falo em esbarrar, parar por um momento e por algum motivo surpresa. Surpreendente é alguém que eu conheço desde que nasci, e que naquela época ainda se conhecia por criança, hoje estar unindo laços e realizando mais um ‘sim’. O convite estava perto da foto de toda minha antiga turma a qual celebrava, no momento registrado, a conclusão do Ensino Médio. Perto destes, ainda sob minha escrivaninha, havia uma lembrança de meu 1º ano de vida exibida em um porta-retrato que estava parcialmente coberto por uma ficha, a qual deveria ser preenchida para concorrência de uma vaga no projeto de pesquisa da universidade em que me graduo. Encontro de meros papeis seria, se eu estivesse no meio de uma crise ceticista (nada contra, mas gosto de chamar de ‘crise’). Como eu estava no gozo de minha plena capacidade subjetiva, resolvi pensar e refletir até cair na paranoia inerente que o tempo nos trás. É certo que esse tem sua gênese na decorrência dos fatos, mas sua manifestação está quando não só olhamos, porém sentimos a quantidade de metamorfoses que se sucedem dia após dia. Feliz de quem pode usufruir completamente de algum bem adquirido há um tempo atrás, ou ainda rir verdadeiramente das graças de uma amizade feita há um tempo maior ainda. Feliz de quem não tem receio de tudo isso.         
         Hoje, mais do que nunca, exponho minha intimidade para tentar desenvolver algo sobre este tema, afinal ele só pode ser explicado por um vida real. Entretanto, assim como comecei, logo paro por aqui. Pode parecer um texto inacabado, mas o tempo é escasso. Nós que ainda tememo-os já estamos demorando para enfrentarmos o maior risco de nossas vidas: nem atrasar, nem adiantar, só seguir o ponteiro tentar.