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domingo, outubro 28

Tatuagem Maria


          
          Todos somos guerreiros. Guerreiros das situações árduas, das dores permanentes e dos momentos facilmente complicados. Acima de qualquer outra coisa somos guerreiros cotidianos. Só não somos todos milicos, porque não sabemos o modo de manusear instrumentos bélicos afim de derrotar um determinado inimigo: sabemos muito mais. Quando esbarramos nas duras condições das nossas vidas, temos que correr e achar a mais potente arma que conseguirmos para que o tiro certeiro no brio de nossos mais ingratos sentimentos aconteça. Quando tu derrotas de uma vez por todas este grande mal que por alguma ventura te cercou, a comemoração subjetiva e até objetiva não só é necessária como é extasiante. Infelizmente alegria de ricos (de espírito) também cessa e depois de um tempo tu vais perceber que o problema superado anteriormente foi de extrema importância para ti, porém já será hora de crescer novamente. Pode ser que teu próximo empecilho não adquira tamanhas dimensões como o anterior. Tu deves estar pensando que obviamente seria um bom sinal, afinal, quanto menor o problema mais fácil a resolução do mesmo. Assim como muitas vezes um mais um não é dois, aquele menor problema que tu encontra pode te dar muito mais trabalho do que o avantajado obstáculo que tu tinha encontrado anteriormente. Isto só acontece quando tu tá usando a tuas armas mais pesadas e complexas tão seguidamente que elas começaram a parecer um simples arco e flecha. O pior disso tudo é que na hora que tu devias usar o armamento indígena, tu acendes o maior fogo possível no pavio do mais forte canhão e o tiro sai pela culatra.
         Tudo tem sua devida dimensão. Para respeitar essa, não só o equilíbrio emocional é necessário, mas também a santa paciência. Foque tuas defesas nas extensas guerras, porém não esqueça dos pequenos conflitos. Só assim seremos guerreiros por completo, ou melhor, heróis cotidianos. 

segunda-feira, outubro 8

Tênue Ponteiro

        
         Esses dias me deparei com o convite de casamento da minha prima. Quando falo em ‘deparar’ não estou me referindo à primeira vez que o vi, e não estou querendo dar a ideia de que fui o único membro da família a descobrir da existência do grande evento apenas com o convite já entregue. Quando uso ‘deparar’ falo em esbarrar, parar por um momento e por algum motivo surpresa. Surpreendente é alguém que eu conheço desde que nasci, e que naquela época ainda se conhecia por criança, hoje estar unindo laços e realizando mais um ‘sim’. O convite estava perto da foto de toda minha antiga turma a qual celebrava, no momento registrado, a conclusão do Ensino Médio. Perto destes, ainda sob minha escrivaninha, havia uma lembrança de meu 1º ano de vida exibida em um porta-retrato que estava parcialmente coberto por uma ficha, a qual deveria ser preenchida para concorrência de uma vaga no projeto de pesquisa da universidade em que me graduo. Encontro de meros papeis seria, se eu estivesse no meio de uma crise ceticista (nada contra, mas gosto de chamar de ‘crise’). Como eu estava no gozo de minha plena capacidade subjetiva, resolvi pensar e refletir até cair na paranoia inerente que o tempo nos trás. É certo que esse tem sua gênese na decorrência dos fatos, mas sua manifestação está quando não só olhamos, porém sentimos a quantidade de metamorfoses que se sucedem dia após dia. Feliz de quem pode usufruir completamente de algum bem adquirido há um tempo atrás, ou ainda rir verdadeiramente das graças de uma amizade feita há um tempo maior ainda. Feliz de quem não tem receio de tudo isso.         
         Hoje, mais do que nunca, exponho minha intimidade para tentar desenvolver algo sobre este tema, afinal ele só pode ser explicado por um vida real. Entretanto, assim como comecei, logo paro por aqui. Pode parecer um texto inacabado, mas o tempo é escasso. Nós que ainda tememo-os já estamos demorando para enfrentarmos o maior risco de nossas vidas: nem atrasar, nem adiantar, só seguir o ponteiro tentar.